Práticas criativas para (sobre)viver o cotidiano.

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Olhar o Mundo: Artes Visuais e Cotidiano


O minicurso Olhar o Mundo: Artes Visuais e Cotidiano, realizado entre os dias 02 e 06 de fevereiro de 2026 no Laboratório de Representação Bidimensional do Departamento de Artes Visuais e Design da Universidade Federal de Sergipe (DAVD/UFS), teve como objetivo investigar o cotidiano como um campo fértil para a criação artística. Partindo da compreensão de que a experiência estética pode emergir das situações mais comuns da vida diária, a atividade propôs aos participantes o desenvolvimento de um projeto autoral construído a partir de observações, registros e experimentações realizadas ao longo dos encontros.

Durante cinco dias, estudantes, artistas iniciantes e interessados em processos criativos foram convidados a exercitar diferentes formas de atenção ao cotidiano, explorando maneiras de transformar experiências aparentemente ordinárias em matéria para a produção visual. O curso articulou discussões teóricas, análise de referências artísticas e atividades práticas, promovendo uma aproximação entre criação, percepção e experiência.

O primeiro encontro foi dedicado à observação e ao registro do cotidiano, incentivando os participantes a reconhecerem situações, objetos, percursos e acontecimentos diários como potenciais disparadores para a criação artística. Em seguida, foram exploradas questões relacionadas à memória e ao arquivo pessoal, compreendendo fotografias, anotações e coleções particulares como formas de construção de narrativas visuais e de elaboração poética da experiência.

Nos encontros seguintes, o minicurso abordou as relações entre cidade, deslocamento e cartografia visual, propondo reflexões sobre os modos como habitamos os espaços urbanos e produzimos significados a partir deles. Também foram realizadas experimentações voltadas para a materialidade dos objetos cotidianos, investigando como elementos comuns podem ser ressignificados por meio de procedimentos artísticos e transformados em dispositivos poéticos.

A etapa final do percurso concentrou-se nas relações entre texto e imagem, explorando a palavra como elemento visual e narrativo capaz de ampliar os sentidos das produções desenvolvidas. Ao longo do processo, os participantes foram estimulados a experimentar diferentes linguagens, técnicas e estratégias de criação, articulando observação, memória, materialidade e narrativa em propostas visuais autorais.

Mais do que ensinar técnicas específicas, o minicurso buscou fomentar modos de olhar e perceber o mundo, incentivando a construção de processos criativos atentos às experiências do cotidiano. Como resultado, os participantes desenvolveram trabalhos que evidenciaram a potência estética presente nos gestos, objetos, trajetos e acontecimentos que compõem a vida diária, reafirmando o cotidiano como espaço de invenção, reflexão e criação artística.

A atividade foi ministrada por Júlia Oliveira Santos, sob supervisão da Profa. Marjorie Garrido Severo, integrando as ações formativas do Curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Sergipe.

MINI-CURSO OLHAR O MUNDO: ARTES VISUAIS E COTIDIANO (2026)

 Mini-curso realizada de 02 à 06 de fevereiro com apoio do Departamento de Artes Visuais e Design (DAVD-UFS)

confira mais o intagram @nucs.artes








A LOUCURA INVISÍVEL

 

Por que tantas pessoas que criam coisas tão lindas vivem tão mal por dentro e por que criar, mesmo assim, pode ser o que as salva.


Existe uma pergunta que muita gente já se fez olhando para a obra de um artista que admira: como alguém capaz de criar algo tão bonito consegue viver tão mal? É uma dúvida genuína, e ela merece uma resposta honesta.

O que os números dizem

A psiquiatra Nancy Andreasen dedicou décadas pesquisando a relação entre criatividade e saúde mental. O que ela encontrou é perturbador e revelador ao mesmo tempo: escritores têm quatro vezes mais chances de sofrer algum transtorno de humor do que a população em geral. Mas ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas apresentam altos momentos de intensidade, entusiasmo e energia que parecem alimentar diretamente o processo criativo.

4× mais chances de transtorno de humor entre escritores, segundo Andreasen

40–50% das pessoas criativas sofrem de algum transtorno de ânimo, e continuam criando

Isso não é coincidência. Há algo na forma como mentes criativas processam o mundo, com mais intensidade, mais sensibilidade, mais permeabilidade às emoções, que as torna simultaneamente mais vulneráveis e mais capazes de transformar experiência em obra.

Criar é sobreviver ao que não tem nome

Para entender por que pessoas que sofrem tanto continuam criando, existe uma frase do psicanalista Didier Anzieu que ilumina tudo: 

"Criar é não chorar mais pelo perdido que se sabe irrecuperável." — Didier Anzieu

Criar não apaga a dor. Não resolve o luto, não cura o transtorno, não preenche o vazio. Mas transforma a relação com tudo isso. Quando você escreve sobre algo que dói, você está criando uma distância entre você e a dor, não para fugir dela, mas para conseguir olhar para ela de frente sem ser engolido.

É por isso que tantas pessoas criam mesmo no fundo do poço. Não porque estão bem. Mas porque criar é o único jeito que encontraram de continuar existindo dentro de uma experiência que não tem palavras, até que elas encontrem as palavras, ou as notas, ou as cores, ou as formas.

A criação como comunicação silenciosa

Há outro ângulo que poucos consideram: quando criamos, estamos nos comunicando, mesmo que ninguém leia, ouça ou veja. Escrever uma história que ninguém vai ler ainda é escrever uma história. Compor uma música que fica guardada no celular ainda é compor. Pintar um quadro que fica virado contra a parede ainda é pintar.

Isso porque o ato de criar já é em si uma forma de elaborar. Do lado de dentro, antes de qualquer audiência, acontece algo importante: você está traduzindo o caos interno em alguma estrutura, e essa tradução, por si só, alivia. É quase uma autoterapia. Uma que não substitui terapia convencional, mas que funciona num nível que a fala às vezes não alcança.

E quando essa criação chega ao outro,, quando alguém lê, ouve ou olha, acontece algo ainda mais poderoso: a pessoa do outro lado reconhece. Sente que não está sozinha. Que aquilo que vivia como particular e intransferível tem, afinal, um nome, uma forma, uma cor que outra pessoa também conhece.

Você não está sozinho nisso

Criar é o meio pelo qual vivemos e nos relacionamos com o mundo. Mas também é o meio pelo qual sentimos e, aos poucos, entendemos o que sentimos. Transformar dor em obra não é fraqueza disfarçada de talento. É uma forma de inteligência emocional que a maioria das escolas nunca ensinou.

Se você está passando por um momento difícil e tem o impulso de criar algo, escrever, desenhar, fotografar, tocar, qualquer coisa, não ignore esse impulso. Ele não está te distraindo do problema. Ele está te ajudando a atravessá-lo.

Porque você não é o único se sentindo assim. E na próxima vez que se sentir frustrado, perdido, pesado demais, escreva um poema sem rima. Não precisa ser bom. Precisa ser seu.

Às vezes, uma folha em branco é o lugar mais seguro do mundo.


COMO FUNCIONA A NOSSA ATENÇÃO?

Você não está distraído porque é fraco. Você está distraído porque ninguém avisou que seu cérebro não foi feito para este mundo.


Você já sentiu que não consegue mais prestar atenção em nada, mesmo quando tenta muito? Você começa uma tarefa, cinco minutos depois está no celular, volta para a tarefa, perde o fio da meada, recomeça. No final do dia, a sensação é de que trabalhou o tempo todo mas não fez nada de verdade. Se isso soa familiar, saiba: o problema provavelmente não é você.

O que a ciência diz sobre atenção

Segundo o psicólogo Robert J. Sternberg, a atenção é um recurso limitado. Isso significa que seu cérebro não foi feito para dar conta de tudo ao mesmo tempo, ele precisa escolher o que entra, o que fica e o que é simplesmente ignorado. Não é preguiça, não é falta de disciplina. É biologia.

Esse processo de seleção acontece de formas diferentes, dependendo do que você está fazendo:

Seletiva: Foco em uma coisa só, ignorando o restante.

Sustentada: Manter o foco por um período prolongado.

Dividida: Tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Alternada: Mudar o foco entre tarefas diferentes.

Cada um desses tipos exige energia mental. E aqui está o ponto crucial: esse sistema foi desenvolvido ao longo de milênios para um mundo completamente diferente do que vivemos hoje.

Um sistema antigo num mundo novo

O cérebro humano evoluiu para prestar atenção em coisas que importavam para a sobrevivência, um movimento no mato, uma mudança no céu, o rosto de alguém desconhecido se aproximando. Era um sistema eficiente para aquele contexto. Mas esse mesmo sistema, agora, precisa lidar com notificações, redes sociais, vídeos infinitos, e-mails, mensagens, reuniões, podcasts e uma enxurrada constante de informação que não para nunca.

Estímulos, notificações, redes sociais, vídeos infinitos,, tudo isso não é só informação. É informação o tempo todo, em sobrecarga. E sobrecarga de informação gera um estado que os pesquisadores chamam de hiperatenção.

Sabe quem vive em hiperatenção? Animais. Eles precisam estar atentos por questão de sobrevivência.

Quando o ser humano entra nesse estado, não é muito diferente: o sistema nervoso interpreta o ambiente como ameaçador, permanece em alerta constante e gasta energia enorme só para processar o que está chegando. O resultado prático disso no dia a dia? Ficamos cada vez mais estressados, com memória curta, cansados, ansiosos, e, ironicamente, cada vez menos capazes de nos concentrar de verdade em qualquer coisa.

O custo invisível da distração permanente

O problema com a hiperatenção é que ela não dói de imediato. Ela se instala devagar, primeiro como uma ligeira dificuldade de se concentrar, depois como irritabilidade sem motivo claro, depois como aquela sensação constante de que você está sempre atrasado, sempre devendo alguma coisa, sempre sobrecarregado mesmo quando não está fazendo nada de especial.

Com o tempo, a mente começa a confundir estímulo com conteúdo. Você rola o feed por uma hora e sente que viu muita coisa, mas na hora de lembrar o que foi, nada. É como comer fast food todos os dias: a quantidade existe, mas a nutrição não. Seu cérebro está sendo alimentado de informação e morrendo de fome de profundidade.

Qual é a saída?

Não existe uma resposta mágica, e qualquer um que prometa uma solução simples está vendendo ilusão. Mas existe um começo: escolher se distrair.

Parece contraditório, mas não é. A diferença entre distração e descanso está na intenção. Rolar o feed sem querer, por impulso, enquanto deveria estar fazendo outra coisa, isso é distração involuntária, e ela cansa mais do que descansa. Mas parar conscientemente, olhar pela janela, caminhar sem fone, ouvir música sem fazer mais nada ao mesmo tempo, isso é descanso de verdade.

Tudo que nosso cérebro precisa é sentir e descansar um pouco. Não precisa ser uma retiro de meditação de dez dias. Pode ser só olhar as nuvens por dois minutos, e perceber o quanto elas são lindas quando você para de verdade para olhar.

Seu cérebro não está quebrado. Ele só está exausto de um mundo que nunca desliga.

Reconhecer isso já é um começo. E começos, por menores que sejam, importam.

 

VOCÊ NÃO É CRIATIVO?


Talvez o problema não seja falta de talento. Talvez seja falta de permissão.


Quantas vezes você já disse isso para si mesmo? "Eu não sou criativo." Talvez tenha virado um mantra silencioso que você repete sem nem perceber na hora de resolver um problema, de decorar um quarto, de escrever uma mensagem. Mas e se essa história que você conta de si mesmo não for verdade?

A maioria das pessoas não percebe, mas carregamos uma definição completamente distorcida do que é ser criativo. Desde pequenos, aprendemos que criar é coisa de gente especial, de quem nasceu com um dom, de quem já saiu do ventre escrevendo poesia ou desenhando com perfeição. Os outros, os mortais, ficam de fora. Ficam apenas copiando.

Talvez você não seja uma pessoa 'não criativa'. Talvez você só esteja vivendo no automático há muito tempo.

Criar não é o que você pensa

Criar não é produzir algo bonito. Criar não é ter ideias geniais que ninguém jamais teve. Criar, em essência, é mudar ligeiramente a forma como você se relaciona com o que já existe.

Pense em uma colher. Ela é só uma colher, até que você comece a olhar para ela de outro jeito. De repente, ela pode ser um instrumento de percussão, um cabo de espelho improvisado, uma metáfora para generosidade. O objeto não muda. O que muda é o ângulo do olhar. E esse ângulo? Isso é criatividade.

É exatamente por isso que criatividade não é um dom que você tem ou não tem. É um músculo. É um hábito de atenção. É a escolha, feita dia após dia, de não aceitar as coisas só como elas se apresentam.

O problema é a permissão

Se criar é algo tão natural, por que tantas pessoas se convencem de que não conseguem? A resposta está numa palavra: permissão.

A sociedade nos ensina muito cedo que há jeitos certos e errados de fazer as coisas. Que improvisar é sinal de despreparo. Que sair do roteiro é arriscar demais. Que só vale mostrar o que já está perfeito. Esse conjunto de regras invisíveis vai silenciando, aos poucos, o impulso criativo que existe em todo ser humano.

O resultado? Pessoas que vivem no automático há tanto tempo que esqueceram como é parar, olhar ao redor e perguntar: "e se fosse diferente?"

A boa notícia é que esse impulso não some. Ele só adormece. E ele pode ser acordado.

A arte como desvio do cansaço

Vivemos numa época de sobrecarga. Somos bombardeados de informação, de urgência, de obrigações. O cansaço virou quase um status, quem não está exausto parece que não está trabalhando o suficiente. E é exatamente nesse cenário que a criatividade sofre mais, porque ela precisa de espaço, de pausa, de um mínimo de presença mental.

É por isso que a arte importa — não como decoração, não como entretenimento passivo, mas como um meio real de desviar do piloto automático. Quando você cria, mesmo que seja algo pequeno, você quebra o ciclo da repetição. Você existe de um jeito diferente por alguns minutos. Isso tem valor. Isso transforma.

Criar é mudar ligeiramente a forma como você se relaciona com o que já existe.

Então, por onde começar?

Não precisa de material caro. Não precisa de talento validado por ninguém. Não precisa de um projeto grandioso. Precisa, antes de tudo, de permissão, a permissão que você dá a si mesmo para tentar, para errar, para fazer algo que não tem utilidade imediata, que não vai ser avaliado, que é só seu.

Comece pelo que está perto. Olhe para os objetos ao redor com curiosidade. Escreva uma frase torta. Rabisque algo sem intenção. Dance na cozinha. Rearranjo os móveis do quarto. Fotografe a sombra de uma xícara. São atos pequenos, mas são atos de criação. E cada um deles é uma micro-ruptura com o automático.

A criatividade não está guardada em algum lugar esperando que você a mereça. Ela está ali, disponível, esperando que você simplesmente comece.

Cartografia da Escuta

 Apresentação

Grande parte da nossa atenção está voltada para aquilo que vemos. Esta prática propõe uma experiência artística baseada na escuta do ambiente.

O objetivo é transformar sons cotidianos em desenho.

Modo de atenção: Escuta
Operação artística: Mapeamento gráfico
Objeto cotidiano: Sons do ambiente
Deslocamento poético: Desenhar sem representar objetos, apenas sons.


Materiais

  • Papel
  • Lápis, canetas ou marcadores

Como fazer

  1. Escolha um lugar para permanecer sentado por alguns minutos.
  2. Feche os olhos por um instante e concentre-se nos sons ao redor.
  3. Cada vez que um som surgir, registre-o no papel através de linhas, pontos, manchas ou formas.
  4. Sons mais intensos podem ocupar mais espaço; sons distantes podem aparecer nas margens da página.
  5. Continue até preencher a folha.

Tempo aproximado

15 a 20 minutos


Pergunta final

Que paisagem apareceu quando você trocou o olhar pela escuta?